top of page
Buscar

Dor Crônica: Por que é diferente?

  • Foto do escritor: Ricardo B
    Ricardo B
  • 19 de mai. de 2023
  • 4 min de leitura

Atualizado: 1 de jul. de 2023

Dor Crônica: Por que é diferente? Esse texto abordará alguns conceitos básicos sobre como entender dor crônica.


A definição revisada pela Associação Internacional para o Estudo da Dor conceitua a dor como “uma experiência sensitiva e emocional desagradável associada, ou semelhante àquela associada, a uma lesão tecidual real ou potencial”


A definição de dor é relativamente ampla para mostrar que a dor é influenciada por muito mais do que apenas dano corporal. Ela é afetada por, e por sua vez influencia outras áreas de sua vida. Emoções, sensações, cognições (crenças sobre a dor) e aspectos sociais estão envolvidos com a dor persistente. Isso é chamado de modelo biopsicossocial da dor.

Via de regra, quando estímulos nocivos (desagradáveis) ativam sensores chamados nociceptores, eles enviam esses potenciais sinais de perigo do corpo para o nosso cérebro através dos nossos nervos, passando pela medula espinhal. São sinais de ALERTA, mostrando que existe um potencial de dano no corpo e que talvez convenha você fazer algo sobre isso. Um exemplo: quando você encosta sua mão em uma superfície muito quente, o estímulo desagradável é transmitido por essas vias e é “interpretado” pelo cérebro como uma alerta de potencial de dano (a provável queimadura), indicando que uma atitude pode ser necessária (tirar a mão do contato com a superfície). Isto ocorre na maioria das situações que envolvem uma dor que seja “aguda”, ou seja, imediata, como por exemplo um trauma recente ou uma inflamação recente.

A dor é considerada crônica por definição quando ela persiste por muito tempo, no caso, vários meses (mais precisamente, pelo menos 3 meses). No entanto, o que acontece no nosso corpo quando a dor “cronifica” são mecanismos totalmente diferentes do que aqueles que ocorrem quando temos uma dor “comum” ou dor “aguda” (como no caso citado anteriormente).

Na dor crônica, a própria transmissão de toda aquela informação que era pra ser relativamente simples (como um alerta), torna-se “doente” por si só. Isso quer dizer que o “sistema” da transmissão da dor passa a ter um problema “nele mesmo”, ou seja, em algum ponto qualquer na longa cadeia de transmissão e processamento (“interpretação”) da informação da dor. Assim, é como se houvesse o “alerta”, mas sem que necessariamente haja o estímulo para que o alarme tenha tocado. E as vezes, para piorar, esse “alerta” começa a disparar com intensidade e freqüência cada vez maiores. Parece complicado, e realmente é mais complicado ainda do que possa parecer, pois além da possibilidade de que se tenha um “problema” em qualquer ponto desta longa cadeia da dor, ainda temos fatores que irão gerar e/ou aumentar (ou reduzir) a sensação de dor – os já citados: emoções, sensações, cognições (crenças sobre a dor) e aspectos sociais.

Da mesma forma com que uma música pode lhe despertar emoções acompanhadas de sensações físicas de bem-estar, emoções específicas ou negativas podem ajudar a desencadear ou piorar os quadros de dor, pois existem conexões entre essas áreas no nosso cérebro. Nosso aprendizado (“memória”) sobre dor também tem influência direta. Assim, quando por exemplo nosso corpo já foi “acreditando” que determinados movimentos causam experiência dolorosa, é esperado que intuitivamente passemos a evitar tais movimentos, com “medo” de gerar novamente dor. Em determinadas situações, há possibilidade de este ciclo ser trabalhado: os atletas, por exemplo, sabem disso há anos. Eles sabem que é o cérebro quem realmente controla o movimento e que, às vezes, a melhor maneira de controlar o movimento é treinar o cérebro. É por isso que, por exemplo, um nadador imagina seu mergulho antes de mergulhar. O movimento começa no cérebro e por isso é uma boa ideia treiná-lo. Isso porque mover-se em vez de evitar a atividade física pode ser muito benéfico em várias situações. Quando você se move, você treina seu cérebro sobre partes do corpo novamente. Já em relação aos aspectos sociais, é mais simples e intuitivo compreender que nossa vida social (incluindo familiar, e também econômica), quando não está “bem”, consegue influenciar negativamente essa engrenagem toda.

Ficou claro, portanto, que a dor crônica é uma doença complexa, em que o problema não é simples e pode estar em qualquer ponto da cadeia de transmissão da dor, ou do processamento dela. Nosso cérebro é o responsável por fazer a interpretação final destes sinais que chegam até ele. Assim, ele pode interpretar o sinal como importante, e ordenar uma atitude imediata, ou simplesmente ignorá-lo, como por exemplo quando notamos um hematoma em alguma parte do nosso corpo e nem lembramos como ou quando aquilo aconteceu, mostrando que é o cérebro nessa caso “ignorou” o alarme). Há ainda inúmeras variáveis – inúmeras mesmo – que influenciam diretamente na evolução das dores crônicas, como todas as que já foram aqui citadas, e várias outras que não foram citadas ainda (como o papel do sono nas dores crônicas, por exemplo).

Devido a esse mecanismo ser tão complexo, existem inúmeros pontos que podem ser abordados para tentar “corrigir” ao máximo estes “defeitos”. Podemos atuar com medicamentos, com intervenções das mais variadas, com muitas terapias não medicamentosas, etc. Mas, há de se compreender que, considerando tudo isso que foi explicado, não há uma “pílula milagrosa”, e não há como se ter sucesso significativo sem que o paciente tenha muita força de vontade para agir em diversos aspectos relacionados a sua dor. É necessário ação em vários pontos, mas dentro de uma estratégia.

Espero que estas dicas possam lhe ajudar

 
 
 

Comentários


Não é mais possível comentar esta publicação. Contate o proprietário do site para mais informações.

© 2024 por Dr. Ricardo Baraldo

bottom of page